Eu lidero.
Mas não inteira.
Tem uma parte minha
que veste a camisa,
e outra
que engole seco.
Uso uma máscara
não de falsidade,
mas de sobrevivência.
Ela sorri,
ela orienta,
ela cobra com educação
porque sabe
que o mínimo já falta em muitos lugares.
Eu não grito.
Não humilho.
Não piso.
Mas também…
nem sempre consigo levantar quem caiu.
E isso pesa.
Existe um conflito silencioso
entre o que eu penso
e o que eu posso.
Entre questionar
e continuar empregada.
Porque consciência
não paga boleto
mas ausência dela
cobra caro na alma.
Me pedem mente de dona.
Mas que dono é esse
que também responde para outro?
É uma inversão estranha:
te ensinam a vestir poder
sem te dar liberdade.
E eu caminho assim…
Cobro procedimento,
alinho rota,
peço que todos andem na linha
mesmo quando, no fundo,
nem eu sei
se essa linha faz sentido.
Mas uma coisa eu sustento:
o clima.
Porque se o sistema é duro,
eu não preciso ser.
Se a engrenagem aperta,
eu alivio onde dá.
E sigo…
Não pelo luxo
nunca foi.
Mas pela dignidade
de uma vida um pouco menos pesada.
Ainda quero fazer mais.
Ainda penso em romper.
Mas, por enquanto,
eu existo nesse meio-termo:
Nem opressora,
nem livre.
Só consciente.
E, talvez,
isso já seja o começo
de alguma mudança.