quarta-feira, 15 de abril de 2026

Liturgia dos descontos

 Há um rito não escrito

nas catedrais de aço e planilha:

onde o erro mínimo

é sacrificado em folha.


Não importa a falha 

se a caixa cedeu à gravidade,

se o número hesitou na contagem,

se o mundo, por um segundo,

não coube na precisão exigida 


há sempre uma lâmina invisível

que recalcula o corpo em moeda.


Chamam de ajuste.


Mas há um nome mais antigo

para quando o peso do sistema

escolhe sempre o mesmo ombro.


Cem por dia 

cem fragmentos de tempo vendidos

a um preço que não compra

nem o direito ao supérfluo simples:

uma fatia quente de normalidade,

um gesto banal de conforto

sem culpa embutida.


O cálculo é perversamente elegante:

o risco não pertence a quem lucra,

mas a quem executa.


Se a mercadoria quebra 

quebra-se junto a dignidade líquida.


Se a conta falha 

é o trabalhador que paga

pela imperfeição do mundo.


E assim se sustenta o teatro:

lucros intactos,

corpos descontados.


Há uma matemática oculta

que nunca aparece no holerite:

o quanto se subtrai da alma

a cada erro cobrado,

o quanto se acumula de silêncio

em parcelas mensais.


Não é sobre caixas,

nem sobre números,

nem sobre perdas eventuais 


é sobre a transferência sistemática

do risco

para quem menos pode absorvê-lo.


E no fim do turno,

quando o cansaço já não argumenta,


resta apenas a pergunta

que ninguém audita:


em que momento

o trabalho deixou de ser troca

e passou a ser

uma forma parcelada

de punição?

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