Há um rito não escrito
nas catedrais de aço e planilha:
onde o erro mínimo
é sacrificado em folha.
Não importa a falha
se a caixa cedeu à gravidade,
se o número hesitou na contagem,
se o mundo, por um segundo,
não coube na precisão exigida
há sempre uma lâmina invisível
que recalcula o corpo em moeda.
Chamam de ajuste.
Mas há um nome mais antigo
para quando o peso do sistema
escolhe sempre o mesmo ombro.
Cem por dia
cem fragmentos de tempo vendidos
a um preço que não compra
nem o direito ao supérfluo simples:
uma fatia quente de normalidade,
um gesto banal de conforto
sem culpa embutida.
O cálculo é perversamente elegante:
o risco não pertence a quem lucra,
mas a quem executa.
Se a mercadoria quebra
quebra-se junto a dignidade líquida.
Se a conta falha
é o trabalhador que paga
pela imperfeição do mundo.
E assim se sustenta o teatro:
lucros intactos,
corpos descontados.
Há uma matemática oculta
que nunca aparece no holerite:
o quanto se subtrai da alma
a cada erro cobrado,
o quanto se acumula de silêncio
em parcelas mensais.
Não é sobre caixas,
nem sobre números,
nem sobre perdas eventuais
é sobre a transferência sistemática
do risco
para quem menos pode absorvê-lo.
E no fim do turno,
quando o cansaço já não argumenta,
resta apenas a pergunta
que ninguém audita:
em que momento
o trabalho deixou de ser troca
e passou a ser
uma forma parcelada
de punição?
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