quarta-feira, 15 de abril de 2026

Hidráulica do Silêncio

Disseram-me: estamos todos no mesmo barco

e aceitei, por economia de conflito,

não por crença.


Alguns, é verdade, descrevem o horizonte,

catalogam o azul como propriedade íntima,

batizam o vento de conquista.

Outros -a maioria sem nome —

domesticam a água com os ombros,

negociam com o peso invisível

de um afundamento sempre adiado.


Há um cálculo — sempre há —

e nele coube a minha existência:

noventa e quatro vírgula cinco por cento

de um mês convertido em pulsação produtiva,

em horas que não me pertencem,

em um tempo que se dissolve

antes mesmo de ser vivido.


O retorno?

Uma geometria mínima:

abrigo suficiente para não morrer,

alimento suficiente para continuar,

tecidos que ocultam o desgaste,

nunca o cansaço.


Chamam de sistema,

mas há quem reconheça a antiga engrenagem

com nova pintura:

correntes agora são contratos,

chibatas — métricas,

e o erro, esse pequeno desvio humano,

é taxado como dívida moral e financeira.


Ansiedade não é falha 

é sintoma de lucidez comprimida.


E ainda assim, pedem mais…

que eu legitime o que já sei,

que eu prove o que já faço,

que eu estude nos interstícios do esgotamento 

como se o saber não fosse também

mais uma forma de pagar pedágio.


Quantas páginas cabem

entre o fim e o recomeço do turno?

Em qual fenda do dia

se encaixa o direito de não produzir?


Somos — dizem — livres,

mas há sangue nos intervalos,

há suor nas margens dos relatórios,

há um silêncio espesso

onde deveria haver revolta.


Do outro lado — sempre há um outro lado —

olhos que não veem rostos,

apenas números que crescem

ou decepcionam.


E eu,

parcelado em erros pequenos,

financiando falhas que não sei se são minhas,

pergunto — não em voz alta,

porque isso também custa:


quem, exatamente,

se beneficia do naufrágio que nunca chega?


E, sobretudo 

quem nos ensinou

a chamar de travessia

aquilo que nunca deixou de ser

cativeiro?

Nenhum comentário:

Postar um comentário

A Máscara que Lidera

  Eu lidero. Mas não inteira. Tem uma parte minha que veste a camisa, e outra que engole seco. Uso uma máscara  não de falsidade, ...