Disseram-me: estamos todos no mesmo barco
e aceitei, por economia de conflito,
não por crença.
Alguns, é verdade, descrevem o horizonte,
catalogam o azul como propriedade íntima,
batizam o vento de conquista.
Outros -a maioria sem nome —
domesticam a água com os ombros,
negociam com o peso invisível
de um afundamento sempre adiado.
Há um cálculo — sempre há —
e nele coube a minha existência:
noventa e quatro vírgula cinco por cento
de um mês convertido em pulsação produtiva,
em horas que não me pertencem,
em um tempo que se dissolve
antes mesmo de ser vivido.
O retorno?
Uma geometria mínima:
abrigo suficiente para não morrer,
alimento suficiente para continuar,
tecidos que ocultam o desgaste,
nunca o cansaço.
Chamam de sistema,
mas há quem reconheça a antiga engrenagem
com nova pintura:
correntes agora são contratos,
chibatas — métricas,
e o erro, esse pequeno desvio humano,
é taxado como dívida moral e financeira.
Ansiedade não é falha
é sintoma de lucidez comprimida.
E ainda assim, pedem mais…
que eu legitime o que já sei,
que eu prove o que já faço,
que eu estude nos interstícios do esgotamento
como se o saber não fosse também
mais uma forma de pagar pedágio.
Quantas páginas cabem
entre o fim e o recomeço do turno?
Em qual fenda do dia
se encaixa o direito de não produzir?
Somos — dizem — livres,
mas há sangue nos intervalos,
há suor nas margens dos relatórios,
há um silêncio espesso
onde deveria haver revolta.
Do outro lado — sempre há um outro lado —
olhos que não veem rostos,
apenas números que crescem
ou decepcionam.
E eu,
parcelado em erros pequenos,
financiando falhas que não sei se são minhas,
pergunto — não em voz alta,
porque isso também custa:
quem, exatamente,
se beneficia do naufrágio que nunca chega?
E, sobretudo
quem nos ensinou
a chamar de travessia
aquilo que nunca deixou de ser
cativeiro?
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